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terça-feira, 8 de dezembro de 2009

O LIVRO DO PANTOCRATOR


O livro que o Cristo
traz na mão é o dos Evangelhos e, em geral, é segurado na mão esquerda; enquanto que a direita abençoa. Em algumas representações do Pantocrator o livro está aberto, para que todos possam lê-lo. Por isso, é costume que o iconógrafo inscreva nele alguma passagem sugestiva dos Evangelhos, referente ao Cristo Senhor. Essas passagens contribuem para ilustrar o nome acrescentado e para especificar o sentido da representação quando falta o nome.

Há várias inscrições, mas abaixo enumeramos apenas algumas propostas por Dionísio de Furná em sua Hermenêutica da Pintura:

SEGUNDO SUA NOMENCLATURA
  • Para o Pantocrator: “Eu sou a luz do mundo, quem me segue não anda nas trevas, mas terá a luz da vida” (Jo 8, 12).
  • Para o Salvador do mundo: "Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração e encontrareis repouso para as vossas almas" (Mt 11, 29).
  • Para o Doador de vida (Zoodotes): "Eu sou o Pão vivo, que desceu do céu: se alguém comer deste pão, viverá" (Jo 6, 51).
  • Para o Mensageiro do Grande Decreto: "Saí de Deus e dele venho; não venho por mim mesmo, mas foi ele que me enviou" (Jo 8,42).
  • Para o Emanuel: "O Espírito do Senhor está sobre mim, por isso me ungiu: mandou-me levar a boa nova aos pobres" (Lc 4, 18).

SEGUNDO SUA REPRESENTAÇÃO

  • Quando o representas como Sacerdote: "Eu sou o bom Pastor: o bom Pastor dá a vida pelas suas ovelhas" (Jo 10, 11).
  • Quando o representas na Assembléia dos Incorpóreos: "Eu via Satanás cair do céu como um relâmpago" (Lc 10, 18).
  • Quando o representas entre os Profetas: "Quem recebe um profeta em meu nome..." (Mt 10, 41)
  • Quando o representas entre os Apóstolos: "Eis que vos dou o poder de pisar serpentes" (Lc 10, 19).
  • Quando o representas entre os Bispos: "Vós sais a luz do mundo; não pode uma cidade..." (Mt 5, 14).
  • Quando o representas entre os Mártires: "Todo aquele que se declarar por mim diante dos homens, também eu me declararei..." (Mt 10, 32).
  • Quando o representas entre os Santos: "Vinde a mim vós todos que estais cansados sob o peso dos vossos fardos e eu vos darei descanso" (Mt 11, 28).
  • Quando o representas entre os Pobres: "Curai os enfermos, purificai os leprosos" (Mt 10,8).
  • Quando o representas sobre uma Porta: "Eu sou a porta: se alguém entrar por mim, será salvo" (Jo 10, 9).
  • Quando o representas num cemitério: "Quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá" (Jo 11, 25).
  • Quando o representas como sumo Pontífice: "Senhor, Senhor, olha do céu e vê, visita esta vinha; protege o que a tua direita plantou" (Sl 80, 15-16).

    * Fonte: GHARIB, Georges, Os Ícones de Cristo: História e Culto. São Paulo: Paulus, 1997.

A Deus seja a Glória! Δόξα τω Θεώ!

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

INSCRIÇÕES E O ALFABETO GREGO

Para identificar um determinado ícone não basta reconhecer sua tipologia. O nome e algumas inscrições não são partes facultativas em um ícone, mas obrigatório para que possam ser benzidas e utilizadas no culto litúrgico.

Normalmente, as inscrições são feitas em alfabeto cirílico nos ícones russos, porém conservam-se as abreviações gregas para indicar a Mãe de Deus, Jesus Cristo e às vezes os santos. Na auréola de Cristo, onde se desenha uma cruz, encontra-se um trigrama que indica o nome de Deus revelado a Moisés: "Aquele que é" (O WN), quando se encontrou diante da sarça ardente. As três letras são colocadas uma no braço esquerdo, o O no centro ao alto e a terceira no braço direito.

Para ver no tamanho real, clique sobre a imagem ...

Na maioria dos ícones que possuem livros ou rolos (ex.: Glykophilousa), muitas palavras estão em forma abreviada e isso dificulta a tradução e a escrita. A forma de se escrever as palavras nesses rolos ou livros também difere em muito da nossa forma, pois usam de junção de palavras (que não é a mesma coisa das abreviações), como é o caso dos ditongos e grupos de consoantes, numa só grafia e, em outras vezes, ainda unem palavras e frases inteiras, dificultando ainda mais.


A Deus seja a Glória! Δόξα τω Θεώ!

sábado, 7 de novembro de 2009

ASSINAR UM ÍCONE ?

Numa obra de arte é comum perceber a assinatura do seu autor, pois o privilegia. Para o expectador, ele contempla a obra e, pela visão, é atraído pela beleza e aí redirecionado ao nome por causa da assinatura. Nesse caso o nome do autor é a identidade do prazer atribuído à beleza.
Na iconografia, o artista “serve” a cânones estabelecidos pela Tradição da Igreja com os seus dons e técnicas.

“Os artistas e os materiais são meios, pois
o verdadeiro iconógrafo é o Espírito Santo”

(Cláudio Pastro. Arte Sacra: O espaço sagrado hoje, pág. 217).

Assim a evidência não deve ser direcionada ao autor, mas à maior glória de Deus e da sua Santa Igreja. O iconógrafo somente cede seus dons ao Doador dos dons e canta como o salmista:

“Não a nós, o Senhor, não a nós,
ao vosso nome, porém, seja a glória
porque sois todo amor e verdade!”

(Sl 115,1)

Por isso, em muitos ícones, não se assinam e, quando assinados, vêm antecedidos pela frase: por mão de, pois se apresenta não como “criador”, como se costuma dizer agora, mas como simples executor e transmissor de uma obra querida pela Igreja.



Este ícone apresenta no canto inferior esquerdo (de quem olha) a assinatura:
Mosteiro da Anunciação - Patmos, 1995 - Por mão de + Markelles Monge

“Este modo de assinar aparece nos ambientes cretenses e venezianos a partir do séc. XVI, como reação ao uso ocidental dos artistas, desde a Renascença, de assinar como próprio nome suas obras” (Georges Garib. Os Ícones de Cristo: história e culto, p. 282).
Alguns ícones modernos já aparesentam uma assinatura do próprio autor, mas fica a questão de que quem se sobressai não é o Mistério Representado, mas o "artista". Assim o autor da pintura reduz a teologia e o mistério do ícone em um "mero" quadro dentre outros.